AS PESSOAS QUE AMAMOS SÃO AS QUE MAIS NOS DECEPCIONAM

 

Ana miller

Quando o crepúsculo se aproximava,Ana iniciava sua lenta e solene caminhada até o parque São Vicente,próximo de sua casa.O parque é bem grande,com muitas árvores e quiosques por toda parte, o canto dos pássaros ecoam pelo lugar que é surpreendentemente tranquilo e aconchegante.  Ocasionalmente Ana cumprimentava alguns conhecidos durante seu trajeto,mas não parava para tagarelar com ninguém,essa era a única hora do dia que ela conseguira reservar um tempo pra si mesma. Ela achava aquele lugar inspirador,ele trazia a tranquilidade que ela precisava para se dispersar dos problemas que a perturbavam diariamente. Chegando até a árvore mais bela do parque,Ana estendeu uma toalha florida sobre a grama e tirou um caderno e uma caneta da bolsa para começar a escrevinhar algumas palavras. Ela gostava de escrever crônicas,e por sinal escrevia muito bem.Em sua maioria ,elas eram sobre seus sentimentos.Escrever sobre eles, fazia com que ela os compreendessem melhor.Naquele dia,o título do texto dela era “As pessoas que amamos,são as que mais nos decepcionam”,ela observou o título por alguns segundos e logo seus olhos se encheram d’agua,sua pele empalideceu e sua expressão mudou. Ao desviar os olhos do papel numa tentativa de conter o choro,Ana avistou um garotinho brincando sozinho num dos quiosques do parque.Era um garotinho na faixa dos 8 anos de idade,moreno dos cabelos encaracolados ,olhos pretos bastante expressivos.Ela sempre fora apaixonada por crianças e logo nem hesitou em ir até o quiosque.Chegando até lá,Ana acenou para o menino,que desconfiado, começou tagarelar.

 – Quem é você? Porque veio até aqui? Você me conhece? – indagou o menino.

-Oi! Meu nome é Ana,muito prazer! Não nos conhecemos ainda,mas eu estava sozinha ali naquela arvore escrevendo – Ana sinalizou em direção ao lugar onde estava- e avistei você aqui sozinho também! Que tal fazermos companhia um pro outro?

-Hum.. Não sei não,eu gosto de ficar sozinho e minha avó não gosta que eu fale com estranhos.- ponderou o menino pensando na reprovação de sua avó se soubesse o que estava acontecendo.

-Ah sim,eu entendo. Quando tinha sua idade,minha mãe também não gostava que eu falasse com estranhos…Mas eu estou me sentindo muito sozinha e teria um imenso prazer em desfrutar de sua companhia. Além do mais,quando sua avó chegar,me apresente como sua amiga,assim nós não seremos mais estranhos. O que você acha?- Ana sugere numa tentativa de conhecê-lo melhor.

-Está bem. Você parece ser uma pessoa legal e eu também não gosto de ficar sozinho… –disse o menino.

-Você também parece ser uma pessoa legal. Como você se chama?-Indagou ela.

-Francisco- disse o menino com um ar de reprovação- Mas pode me chamar de Chico.

-Ok,Chico.-disse Ana abrindo um largo sorriso.

-Você disse que estava escrevendo antes de vir aqui falar comigo. Você é escritora?-pergunta o garoto admirado.

Ana ponderou sobre a pergunta que o menino acabara de fazer.Na casa dos vinte e poucos anos,ela ainda não era oficialmente uma escritora,mas tinha o sonho de publicar um livro futuramente. O que ela tinha até o momento era um blog na internet onde publicava seus textos diariamente.

-Ainda não.Mas pretendo ser! Você gosta de ler?

-Gosto muito. Posso ler o que você estava escrevendo?- Chico perguntou com empolgação.

-Na verdade eu não comecei a escrever ainda. Só escrevi o título do texto,acho também que não tenho muito o que escrever sobre o assunto.-ponderou Ana.

-Ah,claro que tem!Posso ler o título e te ajudar a escrever?-Chico indagou com animação.

Ana apanhou o caderno que guardara na bolsa e o estendeu para  Chico. Logo o garoto correu os olhos pela única linha escrita no papel e refletiu sobre aquilo,gastou alguns segundos até consolidar uma opinião sobre o que acabara de ler,deu um sorriso contagiante,virou-se para Ana e disse:

-Achei legal o assunto e acho que tem muito a dizer sobre ele sim ! Que tal você começar escrevendo assim – Chico deu uma pausa,pigarreou e começou a falar com um tom reflexivo- “nos decepcionar com alguém que amamos é quase a mesma coisa que querer saltar de paraquedas,confiar que ele vai mesmo funcionar, e ele simplesmente não abrir quando você saltar”.

Ana ponderou sobre o que o menino acabara de dizer e se impressionou com tamanha inteligência. Aquela metáfora descrevia perfeitamente o que é se decepcionar com as pessoas que amamos. O que ele disse a fez relembrar parte do que acontecera em sua vida nesses últimos meses, a descoberta sobre a traição de seu ex namorado com sua melhor amiga,o momento em que seu pai virou as costas pra ela diante o falecimento da mãe,entre outras demais situações.O que a deixava mais admirada era a pouca idade do menino,que já tinha conhecimento sobre decepções. Ela se perguntou se o menino já havia passado por algo parecido com o que ela estava passando.Após algum tempo ponderando sobre a metáfora do garoto,Ana se virou para ele e disse:

-Nossa,nunca ouvi algo que descrevesse tão bem o que é se decepcionar com as pessoas que amamos ! Você já se decepcionou com alguém que ama?-Indagou Ana.

Ao ouvir as palavras de Ana,a expressão alegre do garoto deu lugar a um olhar triste e distante.Ele se virou pra ela e disse:

-Sim. Ano passado,eu ainda morava com meu pai e minha mãe, éramos uma família muito feliz,mas problemas financeiros fizeram surgir brigas e mais brigas em nossa casa.Então meu pai começou a beber muito, e sempre voltava tarde da noite embriagado, brigava com mamãe todos os dias e batia nela na minha frente,se eu o tentasse impedir,ele me batia também. Um certo dia,mamãe pediu para que eu fizesse as malas e antes que ele chegasse em casa,iríamos para a casa de minha avó morar com ela. Então ele chegou minutos antes de sairmos e se deparou com as malas e o táxi nos esperando na porta de casa. Ele tirou uma faca do bolso e nos ameaçou,nos disse que se ousássemos ir embora,ele mataria nós dois. Ignorando o que ele dissera,mamãe me puxou em direção ao táxi e papai cravou a faca no peito dela na minha frente. Sem ar,já caída sobre o chão ensanguentada,mamãe me olhou, disse que me amava muito e que era pra eu dar sequencia em nosso plano de fuga sem ela,mas eu não tive coragem.Sem conseguir conter o choro,pedi para o taxista chamar uma ambulância as pressas,mas de nada adiantou,mamãe veio a falecer naquela noite e meu pai fugiu,nunca mais tive notícias dele. Então, hoje vivo com minha avó materna e sinto uma saudade de mamãe que não da pra descrever com nenhuma palavra do mundo.-Chico ponderou,em meio as lágrimas que começavam a cair lentamente sobre seu rosto- Então, acho que isso responde sua pergunta Ana,minha maior decepção foi meu pai.

-Sinto muito- ela limitou-se a dizer,abraçando fortemente o garoto.

Por um longo momento,os dois ficaram ali abraçados.Ana pediu o endereço de Chico e o prometeu que  no próximo final de semana o levaria ao cinema,ele se animou com o convite e começou a contar os dias para vê-la novamente. Na semana que se seguiu,Ana não conseguiu tirar a história de Chico da cabeça e entendeu que certas decepções são incontornáveis e mesmo que o tempo possa amenizar,é impossível esquecer. Já as decepções em sua vida,eram capazes de serem deixadas para trás e ela estava disposta a fazer isso. Quatro anos se passaram e hoje Ana Miller é uma escritora famosa,com dois livros publicados,um deles é sobre a história de Chico.Os dois nunca mais se desgrudaram e praticamente todos os finais de semana,Chico dorme na casa de Ana. De toda essa historia,ela levou consigo uma lição preciosa: certas decepções deixam apenas arranhões em nossos corações,outras são capazes de arrancarem parte dele.

 

ESSE CONTO É DEDICADO A SILVANA ALVES DE CAMPOS MARTINS,QUE ME ENSINOU TUDO O QUE APRENDI SOBRE A VIDA ATÉ AGORA E ME CRIOU DA MELHOR MANEIRA POSSÍVEL PARA EU ME TORNAR A PESSOA QUE SOU HOJE .